terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O santo desiludido


Inclinara-se a palestra, no lar humilde de Cafarnaum, para os assuntos alusivos
à devoção, quando o Mestre narrou com significativo tom de voz:
— Um venerado devoto retirou-se, em definitivo, para uma gruta isolada, em
plena floresta, a pretexto de servir a Deus. Ali vivia, entre orações e pensamentos
que julgava irrepreensíveis, e o povo, crendo tratar-se de um santo messias, passou
a reverenciá-lo com intraduzível respeito. Se alguém pretendia efetuar qualquer
negócio do mundo, dava-se pressa em buscar-lhe o parecer. Fascinado pela alheia
consideração, o crente, estagnado na adoração sem trabalho, supunha dever situar
toda gente em seu modo de ser, com a respeitável desculpa de conquistar o
paraíso.
Se um homem ativo e de boa-fé lhe trazia à apreciação algum plano de serviço
comercial, ponderava, escandalizado:
— Um erro. Apague a sede de lucro que lhe ferve nas veias. Isto é ambição
criminosa. Venha orar e esquecer a cobiça.
Se esse ou aquele jovem lhe rogava opinião sobre o casamento, clamava, aflito:
— É disparate. A carne está submetendo o seu espírito. Isto é luxúria. Venha
orar e consumir o pecado.
Quando um ou outro companheiro lhe implorava conselho acerca de algum
elevado encargo, na administração pública, exclamava, compungido: um desastre.
Afaste-se da paixão pelo poder. Isto é vaidade e orgulho. Venha orar e vencer os
maus pensamentos.
Surgindo pessoa de bons propósitos, reclamando-lhe a opinião quanto a alguma
festa de fraternidade em projeto, objetava, irritadiço:
— Uma calamidade. O júbilo do povo édesregramento. Fuja à desordem. Venha
orar, subtraindo-se à tentação.
E assim, cada consulente, em vista da imensa autoridade que o santo
desfrutava, se entristecia de maneira irremediável e passava a partilhar-lhe os ócios
na soledade, em absoluta paralisia da alma.
O tempo, todavia, que tudo transforma, trouxe ao preguiçoso adorador a morte
do corpo físico.
Todos os seguidores dele o julgaram arrebatado ao Céu e ele mesmo acreditou
que, do sepulcro, seguiria direto ao paraíso. Com inexcedível assombro, porém, foi
conduzido por forças das trevas a terrível purgatório de assassinos. Em pranto
desesperado indagou, à vista de semelhante e inesperada aflição, dos motivos que
lhe haviam sitiado o espírito em tão pavoroso e infernal torvelinho, sendo
esclarecido que, se não fora homicida vulgar na Terra, era ali identificado como
matador da coragem e da esperança em centenas de irmãos em humanidade.
Silenciou Jesus, mas João, muito admirado, considerou:
— Mestre, jamais poderia supor que a devoção excessiva conduzisse alguém a
infortúnio tão grande!
O Cristo, porém, respondeu, imperturbável:
— Plantemos a crença e a confiança entre os homens, entendendo, entretanto,
que cada criatura tem o caminho que lhe é próprio. A fé sem obras é uma lâmpada
apagada. Nunca nos esqueçamos de que o ato de desanimar os outros, nas santas
aventuras do bem, é um dos maiores pecados diante do Poderoso e Compassivo
Senhor.

O juiz reformado

Como houvesse o Senhor recomendado nas instruções do dia muita cautela no
julgar, a conversação em casa de Pedro se desdobrava em derredor do mesmo
tema.
— É difícil não criticar — comentava Mateus, com lealdade —, porque, a todo
instante, o homem de mediana educação é compelido a emitir pareceres na
atividade comum.
— Sim — concordava André, muito franco —, não é fácil agir com acerto, sem
analisar detidamente.
Depois de vários depoimentos, em torno do direito de observar e corrigir,
interferiu Jesus sem afetação:
—Inegavelmente, homem algum poderá cumprir o mandato que lhe cabe, no
plano divino da vida, sem vigiar no caminho em que se movimenta, sob os princípios
da retidão. Todavia, é necessário não inclinar o espírito aos desvarios do
sentimento, para não sermos vitimados por nós mesmos. Seremos julgados pela
medida que aplicarmos aos outros, O rigor responde ao rigor, a paciência à
paciência, a bondade à bondade...
E, transcorridos alguns instantes, contou:
—Quando Israel vivia sob o governo dos grandes juizes, existiu um magistrado
austero e violento, em destacada cidade do povo escolhido, que imprimiu o terror e
a crueldade em todos os serventuários sob a sua orientação. Abusando dos poderes
que a lei lhe conferia, criou ordenações tirânicas para a punição das mínimas faltas.
Multiplicou infinitamente o número dos soldados, edificou muitos cárceres e inventou
variados instrumentos de flagelação.
O povo, asfixiado por estranhas proibições, devia movimentar-se debaixo de
severa fiscalização, qual se fora rebanho de bravios animais. Trabalharia,
descansaria e adoraria o Senhor, em horas rigorosamente determinadas pela autoridade,
sob pena de sofrer humilhantes castigos, nas prisões, com pesadas multas de
toda espécie.
Se bem mandava o juiz, melhor agiam os subordinados, cheios de natural
malvadez.
Assim foi que, certa feita, dirigindo-se o magistrado, alta noite, à casa de um
filho enfermo, foi aprisionado, sem qualquer consideração, por um grupo de guardas
bêbedos e inconscientes que o conduziram a escura enxovia que ele mesmo havia
inaugurado, semanas antes. Não lhe valeram a apresentação do nome e as honrosas
insígnias de que se revestia. Tomado por temível ladrão, foi manietado,
despojado dos bens que trazia e espancado sem piedade, afirmando os sentinelas
que assim procediam, obedecendo às instruções do grande juiz, que era ele próprio.
Somente no dia imediato foi desfeito o equívoco, quando o infeliz homem
público já havia sofrido a aplicação das penas que a sua autoridade estabelecera
para os outros.
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O legislador atribulado reconheceu, então, que era perigoso transmitir o poder
a subalternos brutalizados e ignorantes, percebendo que a justiça construtiva e
santificante é aquela que retifica ajudando e educando, na preparação do Reinado
do Amor entre os homens.
Desde a singular ocorrência, a cidade adquiriu outro modo de ser, porque o juiz
reformado, embora prosseguisse atento às funções que lhe competiam, ergueu,
sobre o tribunal, a beneficio de todos, o coração de pai compreensivo e amoroso.
Lá fora, brilhavam estrelas, retratadas nas águas serenas do grande lago.
Depois de longa pausa, o Mestre concluiu:
— Somente aquele que aprendeu intensamente com a vida, estudando e
servindo, suando e chorando para sustentar o bem, entre os espinhos da renúncia e
as flores do amor, estará habilitado a exercer a justiça, em nome do Pai.

O mensageiro do amor


Falava-se na reunião, com respeito à preponderância dos sábios na Terra,
quando Jesus tomou a palavra e contou, sereno e simples:
— Há muitos anos, quando o mundo perigava em calamitosa crise de
ignorância e perversidade, o Poderoso Pai enviou-lhe um mensageiro da ciência,
com a missão de entregar-lhe gloriosa mensagem de vida eterna. Tomando forma,
nos círculos da carne, o esclarecido obreiro fêz-se professor e, sumamente
interessado em letras, apaixonou-se exclusivamente pelas obras da inteligência,
afastando-se, enojado, da multidão inconsciente e declarando que vivia numa
vanguarda luminosa, inacessível à compreensão das pessoas comuns.
Observando-o incapaz de atender aos compromissos assumidos, o Senhor
Compassivo providenciou a viagem de outro portador da ciência que, decorrido
algum tempo, se transformou em médico admirado. O novo arauto da Providência
refugiou-se numa sala de ervas e beberagens, interessando-se tão-somente pelo
contacto com enfermos importantes, habilitados à concessão de grandes
recompensas, afirmando que a plebe era demasiado mesquinha para cativar-lhe a
atenção. O Todo-Bondoso determinou, então, a vinda de outro emissário da ciência,
que se converteu em guerreiro célebre. Usou a espada do cálculo com mestria, pôsse
à ilharga de homens astuciosos e vingativos e, afastando-se dos humildes e dos
pobres, afirmava que a única finalidade do povo era a de salientar a glória dos
dominadores sanguinolentos. Contristado com tanto insucesso, o Senhor Supremo
expediu outro missionário da ciência, que, em breve, se fêz primoroso artista.
Isolou-se nos salões ricos e fartos, compondo música que embriagasse de prazer o
coração dos homens provisoriamente felizes e afiançou que o populacho não lhe seduzia
a sensibilidade que ele mesmo acreditava excessivamente avançada para o
seu tempo.
Foi, então, que o Excelso Pai, preocupado com tantas negações, ordenou a
vinda de um mensageiro de amor aos homens.
Esse outro enviado enxergou todos os quadros da Terra, com imensa piedade.
Compadeceu-se do professor, do médico, do guerreiro e do artista, tanto quanto se
comoveu ante a desventura e a selvageria da multidão e, decidido a trabalhar em
nome de Deus, transformou-se no servo diligente de todos. Passou a agir em benefício
geral e, identificado com o povo a que viera servir, sabia desculpar
infinitamente e repetir mil vezes o mesmo esforço ou a mesma lição. Se era
humilhado ou perseguido, buscava compreender na ofensa um desafio benéfico à
sua capacidade de desdobrar-se na ação regeneradora, para testemunhar
reconhecimento à confiança do Pai que o enviara. Por amar sem reservas os seus
irmãos de luta, em muitas situações foi compelido a orar e pedir o socorro do Céu,
perante as garras da calúnia e do sarcasmo; entretanto, entendia, nas mais baixas
manifestações da natureza humana, dobrados motivos para consagrar-se, com mais
calor, à melhoria dos companheiros animalizados, que ainda desconheciam a
grandeza e a sublimidade do Pai Benevolente que lhes dera o ser.
Foi assim, fazendo-se o último de todos, que conseguiu acender a luz da fé
renovadora e da bondade pura no coração das criaturas terrestres, elevando-as a
mais alto nível, com plena vitória na divina missão de que fora investido.
Houve ligeira pausa na palavra doce do Messias e, ante a quietude que se fizera
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espontânea no ruidoso ambiente de minutos antes, concluiu ele, com expressivo
acento na voz:
— Cultura e santificação representam forças inseparáveis da glória espiritual. A
sabedoria e o amor são as duas asas dos anjos que alcançaram o Trono Divino,
mas, em toda parte, quem ama segue à frente daquele que simplesmente sabe.

O príncipe sensato

Comentavam os apóstolos, entre si, qual a conduta mais aconselhável diante
do Todo-Poderoso, quando o Mestre narrou com brandura:
— Certo rei, senhor de imensos domínios, desejando engrandecer o espírito
dos filhos para conferir-lhes herança condigna, conduziu-os a extenso vale
verdoengo e rico de seu enorme império e confiou a cada um determinada fazenda,
que deviam preservar e enriquecer pelo trabalho incessante. O Pai desejava deles a
coroa da compreensão, do amor e da sabedoria, somente conquistável através da
educação e do serviço; e, como devia utilizar material transitório, deu-lhes tempo
marcado para as construções que lhes seriam indispensáveis, mais tarde, aos
serviços de elevação. Assim procedia, porque o vale era sujeito a modificações e
chegaria um momento em que arrasadora tempestade visitaria a região, guardandose
em segurança apenas aqueles que houvessem erguido forte reduto. Assim que o
soberano se retirou, os filhos jovens, seguidos pelas numerosas tribos que os
acompanhavam, descansaram, longamente, deslumbrados com a beleza das
planícies banhadas de sol. Quando se levantaram para a tarefa, entraram em compridas
conversações, com respeito às leis de solidariedade, justiça e defesa, cada
qual a exigir especiais deferências dos outros. Quase ninguém cuidava da aplicação
dos regulamentos estabelecidos pelo governo central. Os príncipes e seus
afeiçoados, em maioria, por questões de conforto pessoal, esmeravam-se em
procurar recursos sutis com que pudessem sonegar, sem escândalos visíveis entre
si, os princípios a que haviam jurado obediência e respeito. E tentando enganar
o Magnânimo Pai, por meio da bajulação, ao invés de honrá-lo com o trabalho
sadio, internaram-se em complicadas contendas, em torno de problemas íntimos do
soberano.
Gastaram anos a fio, discutindo-lhe a apresentação pessoal. Insistiam alguns
que ele revelava no rosto a brancura do lírio, enquanto outros perseveravam em
proclamar-lhe a cor bronzeada, idêntica à de muitos cativos de Sídon. Muitos
afirmavam que ele possuía um corpo de gigante e não poucos exigiam fôsse ele um
anjo coroado de estrelas.
Ao passo que as rixas verbais se multiplicavam, o tempo ia-se esgotando e os
insetos destruidores, infinitamente reproduzidos, invadiram as terras, aniquilando
grande parte dos recursos preciosos. Detritos desceram de serras próximas e
fizeram compacto acervo de monturo naquelas regiões, enquanto os príncipes levianos,
inteiramente distraídos das obrigações fundamentais que lhes cabiam, se
engalfinhavam, a todo instante, a propósito de ninharias.
Houve, porém, um filho bem-avisado que anotou os decretos paternais e
cumpriu-os. Jamais esqueceu os conselhos do rei e, quanto lhe era possível, os
estendia aos companheiros mais próximos. Utilizou grande número de horas que as
leis vigentes lhe concediam ao repouso e construiu sólido abrigo que lhe garantiria a
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tranquilidade no futuro, semeando beleza e alegria em toda a fazenda que o
genitor lhe cedera por empréstimo.
E assim, quando a tormenta surgiu, renovadora e violenta, o príncipe sensato
que amara o monarca e servira-o, desvelado e carinhoso, estendendo-lhe as lições
libertadoras, pela fraternidade pura, e cumprindo-lhe a vontade justa e bondosa,
pelo trabalho de cada dia, com as aflições construtivas da alma e com o suor do
rosto, foi naturalmente amparado num santuário de paz e segurança que os seus
irmãos discutidores não encontraram.
Doce silêncio pairou na sala singela...
Decorridos alguns minutos, o Mestre fixou os olhos lúcidos na pequena
assembléia e concluiu:
— Quem muito analisa, sem espírito de serviço, pode viciar-se facilmente nos
abusos da palavra, mas ninguém se arrependerá de haver ensinado o bem e
trabalhado com as próprias forças, em nome do Pai Celestial, no bendito caminho
da vida.

O maior servidor

Presente à reunião familiar, Filipe, em dado instante, perguntou ao Divino
Mestre:
— Senhor, qual é o maior servidor do Pai entre os homens na Terra?
Jesus refletiu alguns minutos e contou:
— Grande multidão se congregava em extenso campo, quando aí estacionou
famoso guerreiro carregado de espadas e medalhas, que passou a dar lições de
tática militar, concitando os circunstantes ao aprendizado da defesa. O povo
começou a fazer exercícios laboriosos, dando saltos e entregando-se a perigosas
corridas, sem proveito real; todavia, continuou como dantes, sem rumo e sem júbilo,
perdendo muitos jovens nas atividades preparatórias de guerra provável. Logo
depois, apareceu na mesma região um grande político, com pesada bagagem de
códigos, e dividiu a massa em vários partidos, declarando-se os moços contra os
velhos, os lares pobres contra os ricos, os servos contra os mordomos, e, não
obstante a sementeira de benefícios materiais, introduzidos na zona pela
competição dos grupos entre si, o político seguiu adiante, deixando escuros
espinheiros de ódio, desengano e discórdia entre os seus colaboradores. Depois
dele, surgiu um filósofo, sobraçando volumosos alfarrábios e dividiu o povo em
variadas escolas de crença que, em breve, propagavam infrutíferas discussões nos
círculos de toda gente; a multidão duvidou de tudo, até mesmo da existência de si
própria. A filosofia, sem dúvida, apresentava singulares vantagens, destacando-se
(a do estímulo ao pensamento, mas as perturbações de que se fazia acompanhar
eram das mais lastimáveis, legando o filósofo muitas indagações inúteis aos
cérebros menos aptos ao esforço de elevação. Em seguida, compareceu um sacerdote,
munido de roupagens e símbolos, que forneceu muitas regras de adoração ao
Pai, O povo aprendeu a dobrar os joelhos, a lavar-se e a suplicar a proteção divina,
em horas certas. Entretanto, todos os problemas fundamentais da comunidade
permaneceram sem alteração.
No extenso domínio, não havia diretrizes ao trabalho, nem ânimo consciente,
nem valor, nem alegria. A doença e a morte, a necessidade e a ignorância eram
fantasmas de toda a gente.
Certo dia, porém, apareceu ali um homem simples. Não trazia armas, nem
escrituras, nem discussões e nem imagens, mas pelo sorriso espontâneo revelava
um coração cheio de boa-vontade, guiando as mãos operosas. Não pregava
doutrinas espetacularmente todavia, nos gestos de bondade pura e constante,
rendia culto sincero ao Todo-Poderoso. Começou a evidenciar-se, lavrando uma
nesga do campo e adornando-a de flores e frutos preciosos. Conversava com os
seus companheiros de luta, aproveitando as horas no ensinamento fraterno e
edificante e transmitia suas experiências a todos os que se propusessem ouvi-lo.
Aperfeiçoou a madeira, plantou árvores benfeitoras, construiu casas e instalou uma
escola modesta. Em breve, ao redor dele, viçavam a saúde e a paz, a fraternidade e
as bênçãos do serviço, a prosperidade e o contentamento de viver. Com o espírito
de trabalho e educação que ele difundia, a defesa era boa, a política ajudava, a
filosofia era preciosa e o sacerdócio era útil, porque todas as ações, no campo,
permaneciam agora presididas pelo santo imperativo da execução do dever pessoal
no bem de todos.
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Calou-se o Cristo, mas a assistência reduzida não ousou qualquer indagação.
Após contemplar o horizonte longínquo, em longos instantes de pensamento
mudo, o Mestre terminou:
— Em verdade, há muitos trabalhadores no mundo que merecem a bênção do
Céu pelo bem que proporcionam ao corpo e à mente das criaturas, mas aquele que
educa o espírito eterno, ensinando e servindo, paira acima de todos.

O servo inconstante

Á frente de todos os presentes, o Mestre narrou com simplicidade:
— Certo homem encontrou a luz da Revelação Divina e desejou ardentemente
habilitar-se para viver entre os Anjos do Céu.
Tanto suplicou essa bênção ao Pai que, através da inspiração, o Senhor o
enviou ao aprimoramento necessário com vistas ao fim a que se propunha.
Por intermédio de vários amigos, orientados pelo Poder Divino, o candidato,
que demonstrava acentuada tendência pela escultura, foi conduzido a colaborar
com antigo mestre, em mármore valioso. No entanto, a breve tempo, demitiu-se,
alegando a impossibilidade de submeter-se a um homem ríspido e intratável;
transferiu-se, desse modo, para uma oficina consagrada à confecção de utilidades
de madeira, sob as diretrizes de velho escultor. Abandonou-o também, sem
delongas, asseverando que lhe não era possível suportá-lo. Em seguida, empregouse
sob as determinações de conhecido operário especializado em construção de
colunas em estilo grego. Não tardou, entretanto, a deixá-lo, declarando não lhe
tolerar as exigências. Logo após, entregou-se ao trabalho, sob as ordens de
experimentado escultor de ornamentações em arcos festivos, mas. finda uma
semana, fugiu aos compromissos assumidos, afirmando haver encontrado um chefe
por demais violento e irritadiço. Depois, colocou-se sob a orientação de um
fabricante de arcas preciosas, de quem se afastou, em poucos dias, a pretexto de
se tratar de criatura desalmada e cruel.
E, assim, de tarefa em tarefa, de oficina em oficina, o aspirante ao Céu dizia,
invariávelmente, que lhe não era possível incorporar as próprias energias à
experiência terrestre, por encontrar, em toda parte, o erro, a maldade e a
perseguição nos que o dirigiam, até que a morte veio buscá-lo à presença dos Anjos
do Senhor.
Com surpresa, porém, não os encontrou tão sorridentes quanto aguardava. Um
deles avançou, triste, e indagou:
— Amigo, por que não te preparaste ante os imperativos do Céu?
O interpelado que identificava a própria inferioridade, nas sombras em que se
envolvia, clamou em pranto que só havia encontrado exigência e dureza nos
condutores da luta humana.
O Mensageiro, no entanto, observou, com amargura:
—O Pai chamou-te a servir em teu próprio proveito e, não, a julgar. Cada
homem dará conta de si mesmo a Deus. Ninguém escapará à Justiça Divina que se
pronuncia no momento preciso. Como pudeste esquecer tão simples verdade,
dentro da vida? O malho bate a bigorna, o ferreiro conduz o malho, o comerciante
examina a obra do ferreiro, o povo dá opinião sobre o negociante, e o Senhor, no
Conjunto, analisa e julga a todos. Se fugiste a pequenos serviços do mundo, sob a
alegação de que os outros eram incapazes e indignos da direção, como poderás
entender o ministério celestial?
E o trabalhador inconstante passou às consequências de sua queda impensada.
Jesus fêz uma pausa e concluiu:
—Quem estiver sob o domínio de pessoas enérgicas e endurecidas na
disciplina, excelentes resultados conseguirá recolher se souber e puder aproveitarlhes
a aspereza, inspirando-se na madeira bruta ao contacto da plaina benfeitora.
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Abençoada seja a mão que educa e corrige, mas bem-aventurado seja aquele
que se deixa aperfeiçoar ao seu toque de renovação e aprimoramento, porque os
mestres do mundo sempre reclamam a lição de outros mestres, mas a obra do bem,
quando realizada para todos, permanece eternamente.

A lição da semente

Diante da perplexidade dos ouvintes, falou Jesus, convincente:
— Em verdade, é muito difícil vencer os aflitivos cuidados da vida humana. Para
onde se voltem nossos olhos, encontramos a guerra, a incompreensão, a injustiça e
o sofrimento. No Templo, que é o Lar do Senhor, comparecem o orgulho e a vaidade
nos ricos, o ódio e a revolta nos pobres. Nem sempre é possível trazer o coração
puro e limpo, como seria de desejar, porque há espinheiros, lamaçais e serpentes
que nos rodeiam. Entretanto, a ideia do Reino Divino é assim como a semente
minúscula do trigo. Quase imperceptível é lançada à terra, suportando-lhe o peso e
os detritos, mas, se germina, a pressão e as impurezas do solo não lhe paralisam a
marcha. Atravessa o chão escuro e, embora dele retire em grande parte o próprio
alimento, o seu impulso de procurar a luz de cima é dominante. Desde então, haja
sol ou chuva, faça dia ou noite, trabalha sem cessar no próprio crescimento e, nessa
ânsia de subir, frutifica para o bem de todos, O aprendiz que sentiu a felicidade do
avivamento interior, qual ocorre à semente de trigo, observa que longas raízes o
prendem às inibições terrestres... Sabe que a maldade e a suspeita lhe rondam os
passos, que a dor é ameaça constante; todavia, experimenta, acima de tudo, o
impulso de ascensão e não mais consegue deter-se. Age constantemente na esfera
de que se fêz peregrino, em favor do bem geral. Não encontra seduções irresistíveis
nas flores da jornada. O reencontro com a Divindade, de que se reconhece
venturoso herdeiro, constitui-lhe objetivo imutável e não mais descansa, na marcha,
como se uma luz consumidora e ardente lhe torturasse o coração. Sem perceber,
produz frutos de esperança, bondade, amor e salvação, porque jamais recua para
contar os benefícios de que se fêz instrumento fiel. A visão do Pai é a preocupação
obcecante que lhe vibra na alma de filho saudoso.
O Mestre silenciou por momentos e concluiu:
— Em razão disso, ainda que o discípulo guarde os pés encarcerados no lodo
da Terra, o trabalho infatigável no bem, no lugar em que se encontra, é o traço
indiscutível de sua elevação.
Conheceremos as árvores pelos frutos e identificaremos o operário do Céu
pelos serviços em que se exprime.
A essa altura, Pedro interferiu, perguntando:
—Senhor: que dizer, então, daqueles que conhecem os sagrados princípios da
caridade e não os praticam?
Esboçou Jesus manifesta satisfação no olhar e elucidou:
— Estes, Simão, representam sementes que dormem, apesar de projetadas no
seio dadivoso da terra. Guardarão consigo preciosos valores do Céu, mas jazem
inúteis por muito tempo.
Estejamos, porém, convictos de que os aguaceiros e furacões passarão por
elas, renovando-lhes a posição no solo, e elas germinarão, vitoriosas, um dia. Nos
campos de Nosso Pai, há milhões de almas assim, aguardando as tempestades renovadoras
da experiência, para que se dirijam à glória do futuro. Auxiliemo-las com
amor e prossigamos, por nossa vez, mirando a frente!
Em seguida, ante o silêncio de todos, Jesus abençoou a pequena assembléia
familiar e partiu.

Explicações do Mestre

Em plena conversação edificante, Sara, a esposa de Benjamim, o criador de
cabras, ouvindo comentários do Mestre, nos doces entendimentos do lar de
Cafarnaum, perguntou, de olhos fascinados pelas revelações novas:
— A idéia do Reino de Deus, em nossas vidas, é realmente sublime; todavia,
como midar-me nela? Temos ouvido as pregações à beira do lago e sabemos que a
Boa Nova aconselha, acima de tudo, o amor e o perdão... Eu desejaria ser fiel a
semelhantes princípios, mas sinto-me presa a velhas normas. Não consigo
desculpar os que me ofendem, não entendo uma vida em que troquemos nossas
vantagens pelos interesses dos outros, sou apegada aos meus bens e ciumenta de
tudo o que aceito como sendo propriedade minha.
A dama confessava-se com simplicidade, não obstante o sorriso desapontado
de quem encontra obstáculos quase invencíveis.
—Para isso — comentou Pedro —, é indispensável a boa-vontade.
—Com a fé em Nosso Pai Celestial — aventurou a esposa de Simão —,
atravessaremos os tropeços mais duros.
Em todos os presentes transparecia ansiosa expectativa quanto ao
pronunciamento do Senhor, que falou, em seguida a longo silêncio:
—Sara, qual é o serviço fundamental de tua casa?
—É a criação de cabras — redarguiu a interpelada, curiosa.
—Como procedes para conservar o leite inalterado e puro no benefício
doméstico?
—Senhor, antes de qualquer providência, éimprescindível lavar,
cautelosamente, o vaso em que ele será depositado. Se qualquer detrito ficar na
ânfora, em breve todo o leite se toca de franco azedume e já não servirá para os
serviços mais delicados.
Jesus sorriu e explanou:
—Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificamos o vaso
da alma, o conhecimento, não obstante superior, se confunde com as sujidades de
nosso Intimo, como que se degenerando, reduzindo a proporção dos bens que
poderíamos recolher. Em verdade, Moisés e os Profetas foram valorosos portadores
de mensagens divinas, mas os descendentes do Povo Escolhido não purificaram
suficientemente o receptáculo vivo do espírito para recebê-las. Ë por isto que os
nossos contemporâneos são justos e injustos, crentes e incrédulos, bons e maus ao
mesmo tempo. O leite puro dos esclarecimentos elevados penetra o coração como
alimento novo, mas aí se mistura com a ferrugem do egoísmo velho. Do serviço
renovador da alma restará, então, o vinagre da incompreensão, adiando o trabalho
efetivo do Reino de Deus.
A pequena assembléia, na sala de Pedro, recebia a lição sublime e singela,
comovidamente, sem qualquer interferência verbal.
O Mestre, porém, levantando-se com discrição e humildade, afagou os cabelos
da senhora que o interpelara e concluiu, generoso:
—O orvalho num lírio alvo é diamante celeste, mas, na poeira da estrada, é
gota lamacenta. Não te esqueças desta verdade simples e clara da Natureza.

A escola das almas

Congregados, em torno do Cristo, os domésticos de Simão ouviram a voz
suave e persuasiva do Mestre, comentando os sagrados textos.
Quando a palavra divina terminou a formosa preleção, a sogra de Pedro
indagou, inquieta:
— Senhor, afinal de contas, que vem a ser a nossa vida no lar?
Contemplou-a Ele, significativamente, demonstrando a expectativa de mais
amplos esclarecimentos, e a matrona acrescentou:
—Iniciamos a tarefa entre flores para encontrarmos depois pesada colheita de
espinhos. No começo, é a promessa de paz e compreensão; entretanto, logo após,
surgem pedras e dissabores...
Reparando que a senhora galileia se sensibilizara até às lágrimas, deu-se
pressa Jesus em responder:
—O lar é a escola das almas, o templo onde a sabedoria divina nos habilita,
pouco a pouco, ao grande entendimento da Humanidade.
E, sorrindo, perguntou:
—Que fazes inicialmente às lentilhas, antes de servi-las à refeição?
A interpelada respondeu, titubeante:
—Naturalmente, Senhor, cabe-me levá-las ao fogo para que se façam
suficientemente cozidas. Depois, devo temperá-las, tornando-as agradáveis ao
sabor.
—Pretenderias, também, porventura, servir pão cru à mesa?
—De modo algum — tornou a velha humilde —; antes de entregá-lo ao
consumo caseiro, compete-me guardá-lo ao calor do forno. Sem essa medida...
O Divino Amigo então considerou:
- Há também um banquete festivo, na vida celestial, onde nossos sentimentos
devem servir à glória do Pai, O lar, na maioria das vezes, é o cadinho santo ou o
forno preparador, O que nos parece aflição ou sofrimento dentro dele é recurso
espiritual, O coração acordado para a Vontade do Senhor retira as mais luminosas
bênçãos de suas lutas renovadoras, porque, sómente aí, de encontro uns com os
outros, examinando aspirações e tendências que não são nossas, observando
defeitos alheios e suportando-os, aprendemos a desfazer as próprias imperfeições.
Nunca notou a rapidez da existência de um homem? A vida carnal é idêntica à flor
da erva. Pela manhã emite perfume, à noite, desaparece... O lar é um curso ligeiro
para a fraternidade que desfrutaremos na vida eterna. Sofrimentos e conflitos
naturais, em seu círculo, são lições.
A sogra de Simão escutou, atenciosa, e ponderou:
—Senhor, há criaturas, porém, que lutam e sofrem; no entanto, jamais
aprendem.
O Cristo pousou na interlocutora os olhos muito lúcidos e tornou a indagar:
—Que fazes das lentilhas endurecidas que não cedem à ação do fogo?
—Ah! sem dúvida, atiro-as ao monturo, porque feririam a boca do comensal
descuidado e confiante.
—Ocorre o mesmo — terminou o Mestre —com a alma rebelde às sugestões
edificantes do lar. A luta comum mantém a fervura benéfica; todavia, quando chega
a morte, a grande selecionadora do alimento espiritual para os celeiros de Nosso
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Pai, os corações que não cederam ao calor santificante, mantendo-se na mesma
dureza, dentro da qual foram conduzidos ao forno bendito da carne, serão lançados
fora, a fim de permanecerem, por tempo indeterminado, na condição de adubo,
entre os detritos da Natureza.

O culto cristão no lar

Povoara-se o firmamento de estrelas, dentro da noite prateada de luar, quando
o Senhor, instalado provisoriamente em casa de Pedro, tomou os Sagrados Escritos
e, como se quisesse imprimir novo rumo à conversação que se fizera improdutiva e
menos edificante, falou com bondade:
— Simão, que faz o pescador quando se dirige para o mercado com os frutos
de cada dia?
O apóstolo pensou alguns momentos e respondeu, hesitante:
—Mestre, naturalmente, escolhemos os peixes melhores. Ninguém compra os
resíduos da pesca.
Jesus sorriu e perguntou, de novo:
—E o oleiro? que faz para atender à tarefa a que se propõe?
- Certamente, Senhor — redarguiu o pescador, intrigado —, modela o barro,
imprimindo-lhe a forma que deseja.
O Amigo Celeste, de olhar compassivo e fulgurante, insistiu:
—E como procede o carpinteiro para alcançar o trabalho que pretende?
O interlocutor, muito simples, informou sem vacilar:
—Lavrará a madeira, usará a enxó e o serrote, o martelo e o formão. De outro
modo, não aperfeiçoará a peça bruta.
Calou-se Jesus, por alguns instantes, e aduziu:
—Assim, também, é o lar diante do mundo. O berço doméstico é a primeira
escola e o primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de
caracteres para a vida comum. Se o negociante seleciona a mercadoria, se o
marceneiro não consegue fazer um barco sem afeiçoar a madeira aos seus
propósitos, como esperar uma comunidade segura e tranquila sem que o lar se
aperfeiçoe? A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se não
aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das
nações? Se nos não habituamos a amar o irmão mais próximo, associado à nossa
luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?
Jesus relanceou o olhar pela sala modesta, fêz pequeno intervalo e continuou:
—Pedro, acendamos aqui, em torno de quantos nos procuram a assistência
fraterna, uma claridade nova. A mesa de tua casa é o lar de teu pão. Nela, recebes
do Senhor o alimento para cada dia. Por que não instalar, ao redor dela, a
sementeira da felicidade e da paz na conversação e no pensamento? O Pai, que
nos dá o trigo para o celeiro, através do solo, envia-nos a luz através do Céu. Se a
claridade é a expansão dos raios que a constituem, a fartura começa no grão. Em
razão disso, o Evangelho não foi iniciado sobre a multidão, mas, sim, no singelo
domicilio dos pastores e dos animais.
Simão Pedro fitou no Mestre os olhos humildes e lúcidos e, como não
encontrasse palavras adequadas para explicar-se, murmurou, timido:
—Mestre, seja feito como desejas.
Então Jesus, convidando os familiares do apóstolo à palestra edificante e à
meditação elevada, desenrolou os escritos da sabedoria e abriu, na Terra, o primeiro
culto cristão do lar.

Jesus no Lar


Para a generalidade dos estudiosos, o Cristo permanece tão-somente situado
na História, modificando o curso dos acontecimentos políticos do mundo; para a
maioria dos teólogos, é simples objeto de estudo, nas letras sagradas, imprimindo
novo rumo às interpretações da fé; para os filósofos, é o centro de polêmicas
infindáveis, e, para a multidão dos crentes inertes, é o benfeitor providencial nas
crises inquietantes da vida comum.
Todavia, quando o homem percebe a grandeza da Boa Nova, compreende que
o Mestre não é apenas o reformador da civilização, o legislador da crença, o
condutor do raciocínio ou o doador de facilidades terrestres, mas também, acima de
tudo, o renovador da vida de cada um.
Atingindo esse ápice do entendimento, a criatura ama o templo que lhe orienta
o modo de ser; contudo, não se restringe às reuniões convencionais para as
manifestações adorativas e, sim, traz o Amigo Celeste ao santuário familiar, onde
Jesus, então, passa a controlar as paixões, a corrigir as maneiras e a inspirar as
palavras, habilitando o aprendiz a traduzir-lhe os ensinamentos eternos através de
ações vivas, com as quais espera o Senhor estender o divino reinado da paz e do
amor sobre a Terra.
Quando o Evangelho penetra o Lar, o coração abre mais facilmente a porta ao
Mestre Divino.
Neio Lúcio conhece esta verdade profunda e consagra aos discí pulos novos
algumas das lições do Senhor no círculo mais íntimo dos apóstolos e seguidores da
primeira hora.
Hoje, que quase vinte séculos são já decorridos sobre as primícias da Boa
Nova, o domicílio de Simão se transformou no mundo inteiro...
Jesus continua falando aos companheiros de todas as latitudes. Que a sua voz
incisiva e doce possa gravar no livro de nossa alma a lição renovadora de que
carecemos à frente do porvir, convertendo-nos em semeadores ativos de seu infinito
amor, é a felicidade maior a que poderemos aspirar.

EMMANUEL

Pedro Leopoldo, 3 de outubro de 1949.